sábado, 10 de abril de 2010

Transferência e projeção


O outro é o que eu vejo, o que eu quero que seja, o que ele pensa que é ou o que é de fato?
No filme “A mulher invisível”, o marido mostra espanto ao ouvir da esposa que ela o deixará. Ele não entende por que aquela relação tão perfeita não a satisfaz. Não consegue entender as razões que a fizeram não querer continuar o casamento. Ela diz que a relação era perfeita para ele, que via o que queria (ou conseguia) ver e vivia uma realidade criada por ele. Era como se ele tivesse criado um personagem e ela apenas interpretasse aquele papel. A esposa disse que, na verdade, ele nunca a tinha visto e que se sentia abandonada mesmo estando ao seu lado. Ele via a mulher idealizada em sua mente. Depois de muito sofrimento para aceitar a “verdade” de que tinha vivido uma farsa durante anos, ele concluiu que nunca a tinha visto porque ela, de fato, nunca tinha existido, se não na sua imaginação.  
Parece que o ser humano tende a criar personagens e projetar no outro os valores que lhe parecem ideais, que muitas vezes nem ele mesmo acredita ter.
É como se o parceiro tivesse a responsabilidade de resgatar todas as relações falidas das quais já participamos, de alguma forma: um pai que fazia a mãe infeliz, uma mãe ausente, um amigo perdido, um filho desejado, e outras tantas. Projetamos na relação atual todas as expectativas e fazemos as transferências de afetos mais impensadas racionalmente. E o outro tem que ser capaz de desempenhar o papel que criamos com perfeição, caso contrário, não é “merecedor” de espaço na nossa estória.
Talvez a grande questão a ser pensada nos relacionamentos seja que só vemos o que queremos ou conseguimos ver e, muitas vezes, não vemos quem o outro é de fato.
No livro “Comer Rezar Amar”, Elizabeth Gilbert fala do “amor desesperado” e da necessidade humana de inventar personagens e exigir que nossos parceiros sejam o que precisamos e do quanto nos decepcionamos quando eles se “negam” a desempenhar os tais papéis.
Muitas vezes as pessoas terminam relacionamentos sejam conjugais, com amigos, ou profissionais, por concluírem, depois de muito desgaste, que aquela relação não as satisfaz e partem para outra, alimentando a expectativa de que, dessa vez, vai ser diferente. Mas como será isso possível se não permitirem ao outro que se mostre como de fato é e que seja visto por elas? E mais, se não permitirem que o outro se mostre como é e não o aceitarem com seus defeitos, não deixarão que a relação seja verdadeira e estarão sempre num monólogo egoísta onde só há espaço para os seus próprios desejos. Sendo assim, só trocarão de parceiros, repetindo os mesmo erros em todas as relações.